André Ventura, Carlos Furtado, José Pacheco

Ex-deputado do Chega pelos Açores revela o que o levou a deixar de acreditar em André Ventura

Carlos Augusto Borges Rodrigues Furtado, ex-deputado dos Açores pelo Chega, que foi expulso do partido em menos de uma semana por decisão do Conselho de Jurisdição Nacional, “baseando-se em meras suposições e ouvindo apenas uma das partes, como tradicionalmente se fazia na extinta União Soviética”, revelou o que o levou a deixar de acreditar em André Ventura e afirma que o Chega prometia ser “um partido de sonho, mas que se está a revelar como sendo mais um do sistema”.

A noite em que deixei de acreditar em Ventura.
Foi após a divulgação dos resultados das eleições legislativas regionais de 25 de outubro, que deixei de acreditar em André Ventura, precisamente quando o núcleo duro vindo do continente subiu ao quarto de hotel para delinear o discurso de Ventura e o futuro dos Açores, aí percebi afinal de que partido se tratava. Na sala ficaram alguns dos heróis na noite eleitoral, aqueles que residem em S. Miguel, porque existiram outros heróis espalhados pelas outras ilhas, nenhum destes que caminharam e empenharam-se por levar o nome do Chega às ilhas açorianas, foram tidos nem achados para a reunião secreta.
Depois desta, veio o discurso CENTRALISTA de Ventura em tom de “quero, posso e mando”, aquela que deveria ser uma noite de comemoração marcada pela eleição de quase três deputados, ficou marcada pelo silêncio após o discurso de Ventura.
No dia seguinte realizou-se uma reunião a meu pedido (que deveria ser de diálogo e estratégia, no entanto esta reunião foi quase pública, uma vez que foi realizada na esplanada do “Baia dos Anjos” conforme indicação de Ventura, onde o mesmo, juntamente com Diogo Amorim, Manuel Matias e o apoio incondicional a Lisboa de José Pacheco, apenas me comunicaram que daí em diante eu não estava autorizado a falar de acordos nos Açores e que a melhor solução seria deixar o PS constituir Governo, que eventualmente cairia em aprovação de programa, fiquei puramente estarrecido, os valores da autonomia e o respeito pelos eleitores e eleitos ficou patente nestas tomada de posição centralista e indiferente, que obviamente não iria respeitar, como açoriano de princípios que sou.
A solução governativa que temos hoje, deve-se a mim e à Direção Regional do partido, que maioritariamente assumiu que esta seria a melhor solução para o momento, contrariando as orientações de Lisboa, que só percebendo a intransigência dos açorianos resolveu reconsiderar a posição.
As ingerências e centralismos não se ficaram por aí, a quatro de fevereiro Ventura regressa aos Açores para falar com o Presidente do Governo, à porta fechada, onde o mesmo Ventura e o seu mentor Diogo Amorim (o pai dos centralismos e fascismos do Chega) nem permitiram a presença dos dois deputados eleitos na região, nesta mesma reunião.
Em março torna-se público o desentendimento entre os dois deputados do Chega nos Açores, o motivo tornado público foi a divergência quanto ao RSI, a razão principal, foi que pela minha parte os interesses dos Açores estavam acima de qualquer interesse partidário, enquanto por parte do outro deputado, a sua imagem perante os órgãos nacionais estava e está acima de tudo, as ligações permanentes de Pacheco a Diogo Amorim foram dando frutos e resultado disso, Ventura quis novas eleições dos órgãos regionais, aceitei porque não tenho medo de vitórias, nem de derrotas, mas o meu adversário tem medo das segundas, por isso desistiu quando sentiu que não tinha apoio para ganhar.
Agora percebo o Chega de Ventura e a mim parece-me aquele sorteio de juízes entre Carlos Alexandre e Ivo Rosa, que foi repetido até dar “Ivo Rosa”, no Chega Açores as eleições irão ser repetidas até dar “Pacheco”, que é o “Yes man” de Ventura, perante esta realidade apenas caminhei arrastando os pés até ao dia de chegar mais uma “investida” de centralismo.
Eis que ela chegou na sexta-feira nove de julho, com uma exigência de organizar jornadas parlamentares nos Açores e apresentação de listas autárquicas, no inicio da semana seguinte, precisamente na semana em que deveria estar presente no plenário na Horta, conforme transmiti (sem sucesso) a Ventura, que não se demoveu da sua rígida agenda para outro qualquer calendário.
Para mim deixar de estar presente na semana de plenário, para estar presente em jornadas parlamentares e ainda apresentar listas ainda incompletas de candidaturas autárquicas, sempre foi algo impraticável, tanto mais que fazer convites a pessoas para integrarem listas, depois das candidaturas já apresentadas seria um ato de falta de respeito para com aqueles que só depois iriam ser convidados, tudo isso foi transmitido a Ventura, mas sem qualquer resultado prático, a vinda aos Açores seria naquela data e “ponto”.
Estas intransigências de Ventura, a somar a uma nova reunião com José Manuel Bolieiro, da qual eu nada sabia, foram a gota de agua que fez transbordar o copo, a partir daí já nada havia a fazer, estava mesmo de saída, a minha verticalidade e visão dos factos impedia que continuasse a defender as cores de um partido e de uma pessoa em que já não acreditava, mas que teimosamente ia defendendo em nome do respeito pela palavra dada.
Para trás deixo uma Direção Regional que sempre me apoiou enquanto lá estive e onde as decisões eram tomadas após a auscultação de todos, a eles deixo um agradecimento profundo e um desejo de muita força de vontade para continuar em frente, uma vez que esta força de vontade será necessária para continuar a representar um partido anti-autonómico assente no pensamento de um homem só, que mesmo acabando de perder um deputado nos Açores e com a consequente perda de capacidade negocial na região, não teve a sabedoria e humildade de se reunir com os órgãos regionais do Chega, ignorando-os até ao momento, nem se fazer acompanhar de elementos das mesmas estruturas, na reunião de 16 de julho que teve com Bolieiro, preferindo sim (conforme a foto) a companhia de uma elemento da direção nacional e do presidente do Conselho de Jurisdição, que é o braço jurídico de Ventura para afastamento de militantes, como foi o meu caso, em que de forma rápida elaborou o meu processo de expulsão do partido, baseando-se em meras suposições e ouvindo apenas uma das partes, como tradicionalmente se fazia na extinta União Soviética.
Deixo aqui um agradecimento a todas as pessoas do partido, mas também de outros partidos e apartidários que me apoiaram em todo este processo, agradecimento ainda à lealdade dos candidatos autárquicos de Angra do Heroísmo, Ponta Delgada, Ribeira Grande, Lagoa e Vila Franca que decidiram recuar nas suas candidaturas, perante o meu afastamento da liderança do partido, mostrando assim que a amizade e a lógica estão acima das questões partidárias.
Para terminar, fica a informação que continuarei como deputado regional, mas agora como independente, ficando a promessa de que no futuro, como no passado, sempre nortear as minhas decisões em função da minha visão sobre aquilo que for melhor para a minha terra e seu povo e que o facto de agora ter uma redução substancial no meu salário, em dada irá diminuir a minha prestação no cargo que ocupo, ficando assim a região a ganhar com isso.
Informo ainda que só faço estas declarações hoje, depois do processo de listas autárquicas por parte do Chega, aparentemente já estar concluído, uma vez que não quero ser responsabilizado, em praça pública, pelo atual e ilegítimo líder regional, por influenciar negativamente a constituição destas mesmas listas.
Em suma, o futuro e a sabedoria popular saberão julgar aquele que prometia ser um partido de sonho, mas que se está a revelar como sendo mais um do sistema, com uma infindável lista se dirigentes à espera de um lugar ao sol, que percebendo não haver lugar para todos, vão-se atropelando uns aos outros.
Viva os Açores.

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