Cheganos Oficiais, Maria Helena Costa

Ideóloga do Chega e deputada na Póvoa de Varzim acusada pelo filho de violência doméstica por ser gay

Miguel Salazar, filho de Maria Helena Tavares Amaral Fernandes Costa, ideóloga do Chega e deputada eleita pelo partido de André Ventura na Assembleia Municipal da Póvoa de Varzim, fez uma publicação nas redes sociais por causa do retrocesso civilizacional provocado pelo projeto de lei aprovado pelo Chega, CDS e PSD que concordaram que a mudança de nome e género no registo civil deve depender de validação médica, mesmo no caso de maiores de idade, e no impedimento da administração de terapias hormonais a menores.
O tradutor acusa a sua mãe, Maria Helena Costa, Presidente da Associação Família Conservadora e comentadora do Observador de violência doméstica e de ter “conseguido a proeza de me fazer sentir vontade de tirar a minha própria vida, só e apenas porque gosto de rapazes”.

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Há assuntos que mexem connosco de forma mais intensa do que outros, debates que nos melindram mais, injustiças que nos tiram mais o sono e retrocessos civilizacionais que nos assustam mais. É natural. Vivemos individualmente as nossas próprias experiências, e esperamos a empatia de quem não compreende o que é estar no nosso lugar quando estas se tornam um pesadelo na nossa vida.
Sabemos o que somos melhor do que ninguém, e podem interpretar estas palavras da forma que melhor vos convier. Sabemos descrever-nos, conhecemo-nos como a palma da nossa mão, os nossos limites, os nossos gostos, as nossas repulsas, os nossos medos, as nossas fraquezas, a nossa identidade. Por isto mesmo, não gostamos de paternalismos. Não gostávamos antes dos 18 anos e continuamos a não gostar.
Não gostamos porque não escolhemos nascer, não escolhemos o berço em que calhamos, nem em que condições a nossa existência será validada por esse mesmo berço. Não escolhemos os nossos pais nem as nossas mães, não escolhemos se o nosso lar será ou não protetor da nossa existência, se quem nos pôs no mundo nos fará ou não sentir vontade de desaparecer da face da Terra e de acabar de uma vez por todas com a agonia que nos impingem à força, mas vamos aprendendo a lidar, independentemente das sequelas que daí advenham.
Não sei o que é ser trans, mas conheço quem seja e tenho a sorte de ser amigo de pessoas que o são.
Tive a sorte de ser encaminhado para um centro de apoio a vítimas de violência doméstica LGBTI+ por uma amiga trans que também era ali acompanhada – a Lua -, e que me salvou a vida.
Tive a sorte de ter um amigo trans – o Tomás (cujo nome eu tive o privilégio de ajudar a escolher) – que me deu um teto quando perdi o meu, sendo já eu independente, mas sem recursos para cair nas boas graças do mercado.
Tive a sorte de ter uma amiga trans – a Nicole – que, quando emigrei para Madrid, se tornou uma das minhas melhores amigas, um refúgio num país completamente novo para mim, onde comecei tudo do zero, cuja casa era também um porto seguro para mim.
Também em Madrid, tive a sorte de viver com um amigo trans – o Hector -. Somos ambos tradutores, gostamos de discutir os mesmos assuntos e compreendíamo-nos como pouca gente nos compreendia dentro dum apartamento com mais 14 pessoas com quem o dividíamos.
A minha vida, hoje, seria mais miserável e pobre se estas pessoas trans não tivessem aparecido. Aprendi com elas diferentes experiências sobre como é ser trans, ouvi a dor delas, mas vi também a força de vontade de se manterem vivas num mundo tantas vezes tão resistente à sua existência.
Aquilo a que assistímos na quinta e na sexta-feira partiu-me o coração de uma forma que já não o sentia há algum tempo. Não me chocou o resultado de uma regressão de quase duas décadas em matéria de direitos humanos porque conheço bem a direita e os fascistas que se sentam no nosso Parlamento, mas a dor é diferente quando vêm atrás da nossa gente.
As minhas amigas e os meus amigos trans não são doentes mentais, têm tanta certeza de quem são como eu tenho a certeza de quem sou, sabem o seu nome como eu sei o meu, amam como eu amo, sofrem como eu sofro, choram como eu choro, riem-se como eu me rio, enfurecem-se como eu me enfureço, e da mesma forma que eu soube quando é que me estavam a pisar, a invisibilizar-me e a tentar “curar-me”, também as minhas amigas e os meus amigos trans, de carne e osso, sabem quando a sua existência é posta em debate e quando este debate as reduz a uma “ideologia” e as empurra para relatórios médicos que se tornam a condição primordial para a sua identidade ser reconhecida pelo Estado, na escola, no trabalho, na rua, nos seus documentos.
Isto tornou-se pessoal. Outra vez. Por mais que tenha vindo a ignorar a existência de quem me deu à luz – Maria Helena Costa -, percebo que o ódio que a consome não parou no momento em que me libertei de toda a violência desta fascista lunática que vive cada dia para nos atormentar, desde que descobriu que sou gay. Enquanto fui prisioneiro dos seus delírios, dos seus insultos, dos seus estalos e puxões de cabelo, das gritarias das milhentas discussões até às tantas da noite, das suas ameaças de que me bateria, me expulsaria de casa, me proibiria de me relacionar com pessoas LGBTI+ e me cortaria a internet se eu abusasse na defesa da minha dignidade, da sua menorização e diabolização da minha existência, soube que não iria parar em mim.
Tudo isto começou com 16 anos. Até lá, ignorava os meus pedidos para me fazer companhia, bem como os avisos de amigos e amigas próximas da família que a avisavam de que estava a negligenciar a atenção que devia dar-me por ficar dias inteiros seguidos a escrever e a publicar livros sobre o porquê de todas as religiões, menos a dela, estarem erradas.
Ela achava que eu não tinha idade para me assumir como gay. “Ele diz que é gay”. Eu só tinha idade para a APAV confirmar ao meu treinador que eu sofria de violência doméstica e para me pré-diagnosticarem, no Centro Gis, com ansiedade e depressão resultantes do ambiente a que a ideóloga do Chega e deputada à Assembleia Municipal da Póvoa de Varzim me submeteu.
Os seus livros homofóbicos e transfóbicos sem qualquer respaldo científico estão à venda em praticamente qualquer livraria, as suas palestras espalhadas por toda a internet, tem palco no Observador para nos desumanizar em cada artigo que escreve, não esconde a sua paixão e a sua relação próxima com Rita Matias – a sua miniatura -, é elogiada por André Ventura em Congressos, tem um dos seus livros prefaciado por Paulo Otero, uma indicação do Chega para o Tribunal Constitucional (que comparou o casamento entre pessoas do mesmo sexo a relações sexuais entre humanos e animais) e, nos dois dias em que se debateu a vida de pessoas trans, ali estava a Maria Helena. Sentada nas galerias da Assembleia da República, sedenta por ver materializada a sua luta pela opressão de quem nunca lhe fez mal, para fazer às pessoas LGBTI+ deste país tão mal ou pior do que o que me fez a mim.
Enquanto ali estava, a deputada Rita Matias apontava para ela e para o seu gangue de fanáticos fascistas, descrevendo-os desde a tribuna como “bons pais” e “boas mães”.
Esta é o exemplo de boa mãe para a deputada do Chega. A inspiração para escreverem projetos de lei para acabarem com as nossas vidas, com a nossa saúde mental, com a nossa segurança, com a nossa liberdade (digo nossa, não porque seja trans, mas porque o bode expiatório será, um dia, toda a comunidade LGBTI+. Em breve, se bem prestaram atenção ao discurso de encerramento da Rita Matias, irão atrás da criminalização das terapias de conversão, às quais fui submetido).
Para a Rita Matias, a Maria Helena Costa é uma boa mãe, mesmo ela tendo conseguido a proeza de me fazer sentir vontade de tirar a minha própria vida, só e apenas porque gosto de rapazes. Uma boa mãe que, quando eu tinha 16 anos, me disse que eu tinha uma doença mortal, que ia acabar na prostituição, que estava possuído por demónios, que ia arder no inferno, entre outras barbaridades pelas quais nunca me pediu desculpa. Mas mais importante para ela do que defender-me e proteger-me, era garantir que não arderá no inferno depois de morrer por aceitar que tem um filho gay.
Quando eu andava na primária, foi traída pelo meu pai – candidato pelo Chega, nas últimas eleições autárquicas, na lista pela Estela -, que escondia o adultério dizendo que ia para o monte orar a Deus, à noite. Lembro-me perfeitamente de ter cerca de seis anos e de o ver a preparar-se para ir dormir na sala, já depois de tudo ter sido descoberto, e de lhe ter ido perguntar se ele ainda amava a minha mãe, a pedido dela. A resposta foi que não, só se fossem amigos, mas isso ela não queria.
Em suma, não tinha idade para saber que gosto de rapazes, mas tinha idade para ser terapeuta de um casal falhado. Hoje, fingem-se felizes, depois de terem deitado para baixo do tapete uma traição que deitou a autoestima dela ao chão e afetou o meu desempenho escolar, e de terem transformado a minha homossexualidade na maior monstruosidade que alguma vez pisou aquela casa.
Gostava de poder eliminar da minha mente a presidente da Associação Família Conservadora, a cujo casamento eu fui quando era bebé. Por ser impossível, tenho vindo a ignorar sucessivamente a sua existência e a sua militância odiosa e visceralmente hipócrita, mas o país acabou de recuar graças também aos contributos diretos e indiretos da minha mãe na redação das propostas aprovadas no dia 20 de março. Agora, a vida, a segurança e os direitos humanos das pessoas trans, a quem devo a minha vida, estarão em risco.
Não se brinca com a vida das pessoas trans. Cada vida trans que vier a ser perdida no decorrer desta legislação medieval será sangue derramado nas mesmas mãos que me deram estalos por me recusar a dizer que “o normal é um homem foder com uma mulher”.
Pensando melhor, se calhar o normal é um antifascista “foder” uma fascista.

Maria Helena Costa, respondeu na sua página ao ataque “com acusações graves e infundadas” e esclareceu que o seu filho “foi criado e educado por ambos os progenitores — pai e mãe — num ambiente de valores partilhados”:

COMUNICADO PÚBLICO
Face às recentes notícias e declarações públicas que me visam directamente com acusações graves e infundadas, cumpre-me, em meu nome e da minha família, prestar o devido esclarecimento. Importa sublinhar que, embora os ataques me sejam dirigidos pessoalmente, o meu filho foi criado e educado por ambos os progenitores — pai e mãe — num ambiente de valores partilhados. Assim, de forma inequívoca e veemente, vimos por este meio expor o seguinte:
1) Negamos categoricamente todas as alegações de violência física ou psicológica contra o nosso filho adulto. Jamais o agredimos ou maltratámos por qualquer motivo — nomeadamente pela sua orientação sexual — e nunca proferimos as afirmações que nos são atribuídas. Tais alegações são falsas, distorcidas e não correspondem à realidade. Repudiamos qualquer narrativa que nos procure retratar como autores de abusos ou actos de ódio.
2) Enquanto cristãos, o nosso amor pelos nossos filhos é incondicional e alicerçado no Evangelho. Reconhecemos em cada um deles a imagem de Deus, amando-os independentemente das suas escolhas ou percursos. Mantemos sempre as portas do diálogo abertas, com respeito e afecto, mesmo perante divergências profundas de visão do mundo. O nosso posicionamento não advém de uma rejeição pessoal, mas da defesa das convicções que professamos.
3) Lamentamos profundamente que desacordos do foro familiar estejam a ser instrumentalizados por sectores da esquerda e colectivos LGBTQIA+ como arma política contra a minha pessoa e o meu partido. Esta campanha visa, claramente, silenciar vozes conservadoras e cristãs que se opõem à medicalização de crianças e adolescentes, bem como à promoção de tratamentos irreversíveis que afectam o corpo e a fertilidade dos mais jovens. A nossa posição — partilhada por inúmeros portugueses preocupados com a protecção da infância — baseia-se na ciência, no bom senso e nos valores constitucionais.
4) Esta diabolização pública gera um ambiente perigoso de incitação ao ódio e coloca a nossa família sob ameaça directa. Limita a nossa liberdade de circulação e expõe as nossas netas a riscos reais. Infelizmente, já assistimos a actos de violência extrema, como o arremesso de cocktails molotov contra participantes da Caminhada pela Vida no último sábado, o que prova como esta retórica pode degenerar em agressões físicas concretas.
5) Apelamos aos órgãos de comunicação social para que pratiquem um jornalismo responsável, isento e plural, que não amplifique narrativas unilaterais e que respeite a liberdade de consciência e de religião consagradas na Constituição da República Portuguesa.
A nossa causa é a defesa da família, da vida e da protecção das crianças — sempre com amor, sem violência e com total confiança na justiça.
Póvoa de Varzim, 24 de Março de 2026
Maria Helena Costa

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